Personagens - Latinha


Queridos leitores e queridas leitoras. Preciso falar uma coisa importante para vocês. Preciso falar da Latinha.


Em todos estes anos meus leitores têm feito perguntas sobre ela. Afinal, o que representa esta latinha que se prende ao cascudinho? Ela pode ser chamada de personagem ou é apenas um objeto inanimado? E, no caso de ser uma personagem, por que ela não fala?


Todo este tempo eu sempre considerei a Latinha apenas como um objeto que ajuda Douradinho a iniciar a sua história. Um recurso narrativo que impulsiona Douradinho a sair de seu “mundo comum” e atender ao “chamado da aventura”, como diria Joseph Campbell em sua “Jornada do Herói”. Sendo assim, a Latinha seria uma espécie de objeto mágico, um amuleto, como o sapatinho de cristal da Cinderela e outros objetos que encontramos nas histórias antigas ou contemporâneas.


Hoje, depois que eu me transformei em pai do Marcelo e da Elisa, meus filhos amados, passei a ver a Latinha de outra forma. Ela é uma personagem com uma força simbólica muito grande. É a representação ao mesmo tempo da maternidade e da orfandade. Me explico.


Perdi minha mãe ao 15 anos de idade, de forma repentina, apenas quatro anos antes de escrever a primeira versão do livro “Amiga Lata, Amigo Rio”. A dor desta perda é algo que só a literatura pode reproduzir. Somente há pouco tempo descobri que, de forma inconsciente, eu imprimi nesta história este sentimento tão difícil de descrever.


A linha que liga Douradinho à Latinha se equipara perfeitamente à função do cordão umbilical! A jornada de amadurecimento que Douradinho vive ao lado de sua latinha é a mesma de todo bebê até alcançar totalmente a independência física e mental.


Em uma interpretação ainda mais pessoal, a conversa unilateral entre Douradinho e a Latinha se aproxima do diálogo que mantemos com nossos entes queridos que já se foram, em momentos de oração... Tal como as conversas que tenho com a minha mãe, que brilha e brilhará sempre viva em minha memória.



Thiago Cascabulho