Do Paranaíba ao Araguaia


O Projeto Douradinho se faz também na estrada, de escola em escola. Somos peregrinos, o que requer ao mesmo tempo boas doses de jogo de cintura, para lidar com os imprevistos, e de humildade, para aceitar e aprender com a caminhada. Junto de um bom preparo, roteiro e planejamento da nossa viagem e apresentação, é essencial ter muito jogo de cintura e improviso. Cada lugar é uma surpresa, cada encontro um universo particular. Com nosso livro “Amiga Lata, Amigo Rio” na mão, vamos até escolas grandes e pequenas, de áreas urbanas ou da zona rural. Vamos aos bairros nobres e periféricos. Em escolas municipais e estaduais, militarizadas e moderninhas, e de tudo que é jeito. Este ano, na maioria das vezes, fomos recebidos com grande alegria e paredes enfeitadas de trabalhos, fotos e desenhos. Mas também há os poucos momentos em que temos que nos esforçar para transformar a indiferença em interesse. Tudo isso faz parte do jogo, desta enorme ciranda que criamos com crianças e educadoras do Brasil inteiro, em defesa dos rios e matas ciliares por meio da literatura.


Acabamos de realizar em setembro a primeira turnê de encontros com alunos de 2019. Passamos por 20 cidades de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Realizamos 42 encontros, onde estiveram presentes 4.919 alunos (isso sem contar com suas professoras, coordenadoras e diretoras!).


Escrevo este texto para contar os causos mais interessantes que eu e o fotógrafo/músico Ricardo Abrahão colecionamos nessa jornada. E, ao celebrar tudo isso, aquecer os motores para pegar a estrada novamente. Ao longo do mês de outubro subiremos o MT para mais aventuras e histórias, levando o cascudo Douradinho para mais 17 cidades.


A primeira apresentação musical

Todos os anos eu e o Ricardo compomos uma música para levar conosco nas apresentações. Este ano fizemos em parceria a música “Mantra do Sonho Junto”, que fala desse nosso sonho de construção coletiva por um mundo melhor. Tivemos a ideia de, ao final da música, ainda levados pelo violão, perguntar para a plateia qual o sonho deles, o que eles gostariam de mudar no mundo. Na nossa primeira apresentação da música, na cidade de Fronteira-MG, não tínhamos ideia de como isso se daria... E fomos surpreendidos com sonhos que nos marejaram os olhos tanto ali, naquela primeira apresentação, como repetidas vezes em outras ocasiões. As crianças querem um mundo sem racismo, com mais igualdade, com rios saudáveis e matas preservadas, sem bullying... Querem respeito, amor, felicidade. Parece simples. E é.


Sonho comum

E, claro, o sonho que mais apareceu foi pelo fim das queimadas. Pudemos sentir nos olhos em quase todas as cidades por onde passamos o sabor da fumaça. Era notória a impressão das pessoas de que, embora as queimadas sejam eventos comuns nestes meses, este ano a intensidade foi totalmente fora do normal. Em Ituiutaba – MG, vivemos dias nublados por este terror.


Atravessando os rios

Para a gente do Projeto Douradinho atravessar um rio é sempre uma celebração, um rito de passagem. Nesta primeira turnê foi marcante a travessia do Paranaíba de balsa, do Minas para o Goiás, mas também o Araguaia, de Goiás para o Mato Grosso. Nos lembrou a música do Tião Carreiro e Pardinho: “Naquele estradão deserto, uma boiada descia / Pras bandas do Araguaia pra fazer a travessia...”


Escolas de coração

Chegar em uma escola toda enfeitada e produzida com carinho para a nossa chegada já é, em si, uma grande emoção. Mas existem aquelas que conseguem superar (e muito!) nossas melhores expectativas. Foi o caso da escola municipal CIME Tancredo de Paula Almeida, em Ituiutaba – MG, da escola Municipal Paulo Freire, em Ribeirãozinho – MT, da escola Municipal São José, em Torixoréu – MT e da escola Carlos Barromeu, em Montividiu - GO. Além de abraçar o projeto por inteiro, incluindo até mesmo a educação infantil, desenvolveram ações que ultrapassaram seus muros, envolvendo a comunidade escolar na confecção de peças com materiais reciclados, em mutirões de plantio de mudas e muito mais.


Organização que chama a atenção

Já outras escolas nos chamaram atenção pela organização das atividades apresentadas. Fomos recebidos com uma mesa formada por representantes da escola e da prefeitura, assistimos a apresentações artísticas com referência ao Douradinho... Foi o caso das quatro escolas por onde passamos em Frutal – MG e da escola Escola Municipal Aída Chaves Andrade, de Ituiutaba – MG, que nos proporcionou questionamentos extremamente elaborados.


Rio Verde, um show

Rio Verde - GO, a maior cidade do projeto este ano, marcou forte sua presença na história do Douradinho. Sob a liderança da Secretaria de Assistência Social, as Secretarias de Meio Ambiente, Educação e Cultura trabalharam unidas em diversas frentes para a realização das atividades que sugerimos em nossa proposta pedagógica. Fomos recebidos em um evento pra lá de comovente, cheio de presenças ilustres e com direito à apresentação musical do projeto de percussão do Lixo ao Luxo, com o qual tivemos o prazer de dividir o palco.


Escritores do nosso futuro

Uma das missões do projeto é desmistificar a figura do escritor, e revelar aos alunos que eles também podem se tornar escritores um dia, caso continuem lendo, escrevendo e amando histórias. Na cidade de Frutal – MG, tive o prazer de conhecer minha colega de letras Yalle Beatriz, de 9 anos, que me deu seu livro, ideia e produção totalmente dela, com direito a marca de editora e tudo. Olha que genial: o livro se chama “Tem ou Não Tem” e conta a história de Maria, uma menina de campo que supera as dificuldades do dia a dia para realizar suas vontades.


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Costumamos dizer que é muito difícil entender completamente o Projeto Douradinho olhando de fora. É claro que tentamos muito por textos, fotos e vídeos passar um pouco a emoção que vivemos pelas estradas. Mas como descrever com exatidão o abraço emocionado de uma professora? Como fotografar o cochicho ao pé do ouvido de uma criança que revela seus sonhos? Não dá para desenhar estes e outros mil momentos que são a força e o alimento para que nosso peixinho continue teimoso, nadando pelo Brasil e amando fazer isso.


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